Por Samarone Lima
Amigos corais, inventei de mudar o lugar de ver o jogo no Arrudão (junto ao escudo, na arquiba) e deu no que deu. Perdemos a primeira, depois de 18 jogos só na felicidade.
Fiquei nas sociais. Por arte do destino, vi a partida ao lado do amigo de um amigo, que eu não conhecia. Não vou citar seu nome, mas nos primeiros 15 minutos eu já sabia que estava diante da figura errática do Torcedor Sincero.
Sim, amigos, quem vai a um estádio de futebol esperando sinceridade? Eu mesmo, torcedor abnegado deste Santa Cruz, não espero sinceridade de ninguém, durante os 90 e tantos minutos.
A gente vai a campo em busca de mentiras, ilusões, devaneios, delírios. Torcedor busca o ópio. Nosso time pode ter jogado um futebol terrível, em qualquer ocasião, mas à saída do estádio, com um espetinho pela metade e uma cerva gelada, reclamamos que faltou pouco para a vitória. Merecemos sempre ganhar.
Pois o Torcedor Sincero via tudo e comentava com rara e detalhada sinceridade. Ele tem uma vocação cívica para dizer somente a verdade, nada mais do que a verdade.
Falta contra o Santa, um simples ombro a ombro, o juiz marca falta contra nosso time e dá amarelo para o zagueiro. Pior: é o segundo. Expulsa nosso atleta.
Solto palavrões em cinco línguas. Vocifero. Derrubo meu copo de cerveja. Jogo pragas as mais diversas no ilustríssimo juiz. Ao meu lado, incólume, o Torcedor Sincero faz seu comentário:
“Mas foi falta mesmo e a expulsão foi justa”.
“Foi justa? Nem foi falta e o sujeito ainda expulsa o nosso zagueiro e você diz que foi justa?”, reclamo.
“Além disso, o zagueiro já tinha amarelo. É a regra”.
Olhei para o outro lado do estádio. Meus amigos do escudo, se ouvissem uma conversa dessas, passariam mal.
Ataque do Santa, a bola não sai, Keno avança, se prepara para cruzar, é agora o empate, vai Keno, vai lá garoto, fico repetindo, mas o bandeirinha marca lateral.
Repito todos os palavrões e pragas, agora com mais força, triplicadas.
“Mas saiu”, diz o meu colega de arquibancada.
Faço de conta que não escutei. Me disfarcei de surdo. Ele só pode querer estar me provocando, é o que penso. Mas está ao meu lado, com a camisa coral.
Mas não era nada pessoal. Com os amigos, ele comentava da forma mais natural do mundo sua visão sincera das coisas do futebol.
Ataque do Santa, é agora, penso comigo, vamos empatar logo essa parada, quando… sobe a bandeira do impedimento.
Minha indignação vai ao ponto máximo. Perco a paciência. Antes de sair para comprar uma Itaipava, escuto ele se antecipar:
“Estava bem adiantado mesmo”.
Volto com meu copão cheio. Ah, que bom que a cerva gelada foi liberada nos estádios…
Sinceridade continua a mil. Nada passa por ele sem uma postagem ao vivo. Eu não curtia nada daquilo.
Fim de jogo. Irritado com a derrota, começo a pensar no próximo jogo.
O Torcedor Sincero é um obsessivo. Ele pratica um esporte perigoso para quem quer viver com uma certa paz: o Sincericídio.
“A derrota foi merecida”.
Olho para o escudo coral, cheio de flores, junto à arquibancada. Lá estão meus companheiros de luta.
Nenhum deles é sincero, graças ao bom Deus.